O Talvez
A psicologia alimenta-se da vida. O comportamento humano é observado desde tempos incalculáveis, seja ele expresso em pinturas rupestres de paredes ancestrais ou na literatura de Homero, na relação dos humanos guerreiros com seus deuses. Tudo é descritivo, tudo é observável, quase sempre inapreensível. Na linha histórica, o humano é, frequentemente, alvo de atribuições que o caracterizam como corpo e alma, às vezes mais alma que corpo, ou ao contrário. Somos ato e potência, somos alegria, mas também somos o lobo do próprio homem. Entre crédulos e incrédulos, o humano é filho de deuses ou o Übermensch, que transcende a si mesmo na ponta da linha do aperfeiçoamento. A existência invalida as regras. As histórias individuais transformam esse homosapiens, que é identificado com os primatas, e reconfiguram esta classificação. A psicologia seria equivocada se fosse classificatória. Não seria necessário termos mais uma ciência que define, agrupa, diagnostica e apresenta vereditos a partir de comportamentos que se repetem e sugerem padrões. O humano é mais que isso. Ele tem a propriedade de aprender, crescer, sofrer e, até mesmo, entender o seu sofrimento. Às vezes, consegue resolver-se e atenuar as suas dores. Outras, não se vê livre do peso da vida, mas encontra uma pacificação. Há também aquele que não encontra o reparo, aquele cuja dor sobrepõe-se de tal modo que ele prefere morrer. Sim, e estes são muitos. Em meio a tudo isso, a psicologia oferece alguma possibilidade, seus ajustes, suas tentativas. Também vai observando, absorvendo e crescendo. Ela habita o terreno da possibilidade e o seu número é o talvez. Aprendeu de Homero, Wundt, Dostoiévski, Freud, Paulo Freire, Skinner, Mia Couto, Caetano Veloso, Machado de Assis, que nenhum humano é igual. A psicologia segue aprendendo que é humana e alimenta-se da vida. Ela não pretende dominar. Ela circunda.
Marcos Davi Ferreira
10/27/2026
